Incêndio atinge território do Povo Tremembé da Barra do Mundaú às vésperas de celebração ancestral; povo também relata ameaças

Fogo começou poucas horas depois de o perfil oficial do povo Tremembé receber uma mensagem ameaçadora nas redes sociais. A proximidade entre os episódios gera preocupação e reforça a necessidade de investigação e medidas de proteção territorial.
O território do Povo Tremembé da Barra do Mundaú, localizado no município de Itapipoca, litoral oeste do Ceará, foi atingido por um incêndio na tarde de quinta-feira (29 de outubro), por volta das 17h30. As chamas alcançaram uma área próxima ao espaço onde parentes realizavam os preparativos para o VII Ritual do Alimento Ancestral Tremembé, realizado nos dias 30 e 31 de outubro, com o tema “Troncos Velhos: vivos e encantados”.
O incêndio aconteceu às vésperas de uma das celebrações mais importantes do calendário cultural do povo Tremembé. O Ritual do Alimento Ancestral representa um momento de valorização dos conhecimentos tradicionais, dos vínculos com os antepassados e da transmissão de saberes entre gerações. Neste ano, o tema “Troncos Velhos: vivos e encantados” reafirmou a importância dos mais velhos na preservação da memória, da história e da identidade do povo.
Segundo relatos, algumas pessoas organizavam o espaço da celebração quando sentiram um forte cheiro de fumaça. Ao verificarem a situação, perceberam que uma área próxima estava tomada pelas chamas. O fogo se espalhou rapidamente, favorecido pela presença de tabuba, vegetação que, quando seca, funciona como material combustível e facilita a propagação do incêndio.
Diante da situação, o território foi mobilizado por meio de grupos de WhatsApp, comunicando o ocorrido e solicitando apoio. A Brigada Indígena Tremembé, responsável por ações de monitoramento, vigilância e proteção territorial, foi imediatamente acionada. Os brigadistas reuniram os equipamentos necessários e seguiram para o local, onde atuaram junto a outros integrantes do povo no combate às chamas.
A mobilização coletiva permitiu controlar o incêndio. A atuação da Brigada Indígena foi fundamental para conter o avanço do fogo e proteger outras áreas do território. O episódio também evidenciou a importância da organização própria do povo e das estratégias de vigilância territorial construídas para responder a situações que colocam em risco a terra, a biodiversidade e a segurança das famílias Tremembé.
A gravidade do incêndio ganha outra dimensão diante de uma ameaça recebida pelo Povo Tremembé da Barra do Mundaú na mesma data. Na manhã de quinta-feira (29), o perfil oficial do povo no Instagram recebeu uma mensagem com conteúdo ameaçador. Poucas horas depois, no fim da tarde, o incêndio atingiu o território.
A proximidade temporal entre os acontecimentos provocou preocupação entre as lideranças e os parentes, que levantam a possibilidade de uma relação entre a ameaça e o incêndio. Até o momento, não há confirmação de que os episódios estejam relacionados. No entanto, a sequência dos fatos exige atenção das autoridades e uma investigação que considere as circunstâncias de ambos os acontecimentos.
A ameaça recebida pelas redes sociais e o incêndio registrado no território não podem ser tratados com indiferença. A proteção territorial envolve também a garantia da integridade física das famílias, das lideranças e de todas as pessoas que vivem e atuam na defesa dos direitos indígenas. Diante de situações de intimidação e violência, cabe ao poder público assegurar condições efetivas de segurança e proteção aos povos originários.
Defender o território é proteger a memória e a vida
Para o Povo Tremembé, a defesa do território está diretamente relacionada à continuidade de sua existência, à preservação da biodiversidade e à manutenção de seus conhecimentos, práticas culturais e relações ancestrais. A terra é espaço de moradia, produção, transmissão de saberes, celebração e exercício da identidade indígena. Por isso, qualquer ameaça à sua integridade também representa uma ameaça aos direitos e aos modos de vida do povo.
A realização do VII Ritual do Alimento Ancestral reafirma a relação dos Tremembé com seus antepassados e a importância dos Troncos Velhos na construção e continuidade de sua história. Mesmo diante do episódio, o povo manteve sua mobilização em torno da celebração, reafirmando seus vínculos com a ancestralidade e o compromisso com a preservação de suas tradições.
O CETRA se soma às reivindicações do Povo Tremembé e ressalta que a proteção dos territórios indígenas é uma obrigação do Estado. É necessário que as autoridades competentes apurem as circunstâncias do incêndio e da ameaça recebida, investiguem uma possível relação entre os episódios, identifiquem e responsabilizem os envolvidos e adotem medidas permanentes de prevenção e proteção às famílias e lideranças indígenas.
A defesa dos territórios indígenas é também a defesa da vida, da memória, da autonomia e dos direitos dos povos originários. O CETRA reafirma sua solidariedade ao Povo Tremembé da Barra do Mundaú e a todos os povos indígenas que enfrentam ameaças e violações de direitos na luta pela garantia de seus territórios.


