Duas décadas da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca
Em 2025, a Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca celebra 20 anos e se consolida como experiência exitosa e pioneira de comercialização de produtos agroecológicos no Ceará
Por: Alice Sousa

Itapipoca é a cidade cearense com maior população rural, sendo 41,5% do total de habitantes. Nesse cenário, em 2005 foi criada a Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, um dos primeiros canais de comercialização da agricultura familiar agroecológica do estado do Ceará, respondendo a uma demanda da população para o escoamento dos alimentos produzidos.
O assessor técnico do CETRA, Sérgio Veríssimo, que esteve presente e acompanhou o florescer desta iniciativa, comenta o cenário na época do surgimento da feira:
“Essa feira, na verdade, também começou com um processo paralelo de formação em agroecologia, que foi muito importante para a compreensão dos sistemas alimentares do território. As famílias começaram a entender essa dinâmica de que era possível fazer essa produção agroecológica e poder se alimentar dessa produção e poder vender seus excedentes, na perspectiva de ter oferta para as famílias aqui da cidade de Itapipoca”, resgata Sérgio.
No início, a feira surgiu com periodicidade mensal, a partir da dinâmica de comercialização, em que as pessoas levavam o excedente da produção de seus agroecossistemas. A feira motivou a diversificação das produções das famílias envolvidas, passou a ser quinzenal e atualmente ela acontece todas às quartas-feiras, a partir das 6h. E, a partir dela, surgiram várias outras experiências de feiras em outras regiões que compõem a Rede de Feiras Agroecológicas e Solidárias do Ceará, criada em 2006.
Esse pontapé inicial em Itapipoca é fruto de uma ação conjunta que prosperou com a força da organização civil: CETRA, Cáritas Diocesana, Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultoras e Agricultores Familiares do Estado do Ceará (FETRAECE), Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), Instituto SESEMAR, Cooperativa de Crédito Rural de Itapipoca (Cocredi) e Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Território de Itapipoca. O apoio financeiro veio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), da Cooperação Interna Internacional Manos Unidas e da Fundação Konrad Adenauer.
Para a agricultora e coordenadora da Feira de Itapipoca, Fátima Pinto, que esteve presente desde a primeira feira, é um orgulho imenso enxergar a experiência de Itapipoca como “Feira-Mãe” quando se fala em comercialização de produção agroecológica da agricultura familiar no Ceará:
“Para mim é muito importante a gente saber que outras pessoas já se inspiraram na gente. Que daí delas já criou outras feiras agroecológicas solidárias, inclusive a de Fortaleza. Isso é muito bom para o território, para a localidade, para os agricultores, porque, assim, é uma forma de eles terem o seu próprio recurso”, comenta, Fafá.
Geração de renda para mulheres no campo

A geração de renda das feiras é muito importante quando voltamos o olhar para o gênero nessa experiência: as feirantes que compõem a Feira de Itapipoca, assim como outras experiências de feira em outras regiões, representam a maioria.
Outra prática que vem rendendo frutos para a manutenção da feira semanal de Itapipoca é o fundo rotativo. Fafá, responsável pela organização e aplicação do dinheiro, explica que essa é uma ferramenta para não ficar dependente de editais de fomento. Com o valor do fundo são comprados materiais para as barracas, cadeiras para todos os feirantes e até regularização de pagamentos atrasados com a associação das agricultoras e agricultores da região.
“Cada dia que passa, tem uns feirantes se organizando e achando que dá certo. Convidando mais gente. Sabendo que a agricultura familiar, ela dá certo. Quando você não planta só uma coisa, quando você tem variedades. Porque, antes, só era plantar roça para fazer farinha, milho e feijão. E hoje não. Os quintais são todos como uma agrofloresta de frutíferas. Aí, isso dá certo. Tem fruto o tempo todo. Tem dinheiro o tempo todo”, explica, com orgulho, Fafá.
A experiência também contribui para que as agricultoras e a própria juventude permaneçam no campo e diversifiquem a produção dos quintais, pois elas sabem para onde escoar a produção. Além disso, garantem segurança alimentar e nutricional das próprias famílias com alimentos saudáveis e sem veneno.


