Floresta de Alimentos planta agrofloresta na Festa do Murici e do Batiputá
Evento anual do povo Tremembé da Barra do Mundaú celebra os frutos tradicionais do território e a ancestralidade
Por Rosilene Serafim

Um momento de louvação ao fruto que alimenta e ao que cura: essa é a Tradicional Festa do Murici e do Batiputá, realizada pelo indígenas Tremembé da Barra do Mundaú do município de Itapipoca. Neste ano, foi realizada a décima sétima edição do evento, com muita música, cerimônias espirituais, colheita coletiva dos frutos, jogos indígenas, oficinas, pescaria e muita celebração à cultura alimentar.
Além de tudo isso, a programação contou com o plantio de uma agrofloresta no território pelo projeto Floresta de Alimentos, uma iniciativa do CETRA e Diaconia, realizada em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
Jovens e adultos do Território Indígena (TI) Tremembé da Barra do Mundaú se juntaram à equipe técnica do projeto no segundo dia de festa para dar início a um sistema agroflorestal. O ponto escolhido não poderia ser mais simbólico. A agrofloresta foi plantada no quintal da Casa de Sementes da TI, onde é preservada a riqueza genética de diversas plantas como o próprio murici e o batiputá, e ainda outras nativas da região. A Casa fica na área da TI conhecida como Retomada, chão sagrado para os indígenas, reconquistado após muita luta contra um grande projeto hoteleiro no local.
A ideia é plantar agora e colher frutos já na Festa do próximo ano, destaca a Lauriane Tremembé, técnica de campo do projeto Floresta de Alimentos que coordenou a atividade junto aos parentes indígenas.

“O trabalho continua, não só no espaço plantado durante a Festa, mas de vários outros que vão estar acontecendo aqui na aldeia do povo Tremembé, que é meu povo também. E a gente vai estar fazendo esse fortalecimento, trazendo essa diversidade de espécies, fortalecendo a biodiversidade do território, mas também mostrando que a gente consegue produzir muitos alimentos, conservando a natureza e trazendo diversas outras formas de vida para esse espaço também”, indica Lauriane.
A Festa do Murici e do Batiputá
Do murici se come o fruto, se faz o suco, a polpa e há também a lambança do murici, que consiste em fazer uma pasta do fruto e adicionar farinha, criando um tipo de papa reforçada.
“É mais forte ainda para o agricultor e para nós que trabalhamos pesado. Ele [a lambança do murici] alimenta mais do que eu tomar um copo de suco. Então a gente machuca ele, bota farinha dentro e come. Fica mais forte. Então ele serve para esse alimento no nosso cotidiano. E é saudável, é uma fruta saudável para a gente”, descreve a liderança indígena Adriana Tremembé.
Já o batiputá vira um óleo medicinal, mas também comestível, que os Tremembé confiam para a cura desde dores articulares, na garganta, no corpo e problemas de estômago.
“Então é uma cura que a gente encontra na natureza, é uma cura que você encontra em nós, Tremembé, porque está aqui na raiz do nosso território. Então a gente celebra esse momento. Porque é o período de janeiro que eles estão nos dando a nossa Mãe Natureza, esses frutos nesse período”.
O estudante Carlos Antonio, conhecido como Carlinhos Tremembé, se apresenta no evento com o grupo de dança Parente Torém. Para ele, a tradição de celebrar os frutos tradicionais em janeiro é apresentar a diversidade e riqueza cultural do território, além de celebrar e fortalecer os rituais sagrados do povo Tremembé da Barra do Mundaú.
“Essa festa em si é muito rica em uma diversidade de coisas. Por exemplo, aqui dentro tem noites culturais, têm as modalidades indígenas, que nela nós praticamos nossas formas de luta, também tem as comidas que os nossos troncos velhos, vivos e encantados, deixaram para nós, que nos pretende passar de geração a geração. E é isso, né? A espiritualidade nas festas, principalmente, na minha opinião, do Murici e do Batiputá, é onde está mais presente, aqui dentro do espaço”, descreve Carlinhos.
A Retomada é um lugar que carrega muitas histórias, reforça Evelyn Rochelle. Com apenas 15 anos, ela já faz parte de diversos projetos do Território e fala sobre a importância de festejar nesse espaço.
“Aqui é uma retomada, que no início de tudo era um lugar que lutaram para conseguir. Muitos de nós estavam sendo ameaçados e bem no início da luta mesmo. E aqui é um lugar de fortalecimento, principalmente para nós, um lugar onde acontecem vários encontros do nosso povo, um lugar que realmente carrega muita história raiz aqui, esse território aqui todinho, né?”, conta.
Por anos, o Território Tremembé da Barra do Mundaú foi ameaçado pelo empreendimento espanhol Nova Atlântida, que pretendia construir um complexo turístico em cima das terras indígenas. A briga na Justiça foi longa e, apesar da área ter sido delimitada pela Funai há mais de uma década, somente em abril de 2023 a terra indígena foi oficialmente homologada pelo governo Lula (PT).
Além da Festa do Murici e do Batiputá, a Retomada abriga o Ritual do Alimento Sagrado, encontros, reuniões e celebrações diversas do Território e reforçam a importância de lutar pela garantia da Terra e permanência das tradições.
“São festas que carregam histórias, raízes, que representam muita coisa do nosso povo, como a espiritualidade e a cultura, principalmente. O nosso jeito de viver, a nossa história, a nossa luta, que… Que a luta nunca acaba, né? A luta sempre continua”, reforça Evelyn.
A Festa do Murici “limpa a alma e tira todas as energias negativas do corpo”, diz Lívia Tremembé, umas das articuladoras da Juventude Tremembé em Ação e agente ambiental indígena. A jovem adiciona o papel dos rituais para a conexão com os mais jovens, que entram em contato com o conhecimento ancestral e repassam para as próximas gerações.“Hoje, a nossa juventude atual vai aprender para passar para outra juventude que já nasceu”, direciona.

A preparação e a partilha dos alimentos são momentos mais que especiais na celebração. Lívia pegou gosto pela cozinha e explica que é um lugar de muito aprendizado.
“Eu gosto de tudo, tudo, tudo na Festa. Mas principalmente de estar participando assim na cozinha, na parte de preparar os alimentos pra galera. Eu acho muito bom, porque na cozinha a gente aprende vários conhecimentos. Mas na cozinha a gente aprende o segredo do gosto da comida. Todos os truques, a gente aprende na cozinha”, explica.
O Território Indígena Tremembé da Barra do Mundaú integra o projeto Floresta de Alimentos também como Comunidade Saudável e Sustentável. Por isso, além das agroflorestas e quintais produtivos plantados com as famílias, a TI também entra como área de conservação ambiental e com a Floresta de Alimentos coletiva.






