Luta pela mãe terra
Primeira turma de multiplicadores indígenas em Direitos Humanos conclui formação

Por Miguel Cela

Entre os dias 6 e 7 de outubro, na Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, no município de Itapipoca (CE), aconteceu o último módulo da primeira turma do Programa de Formação de Multiplicadores e Multiplicadoras Indígenas em Direitos Humanos do projeto Ação Tremembé. O projeto, desenvolvido pelo CETRA com financiamento da União Europeia tem como objetivo fortalecer conhecimentos e as articulações entre os índios.

Durante os dois dias de formação, os índios e índias da turma Os Protegidos pelos Ancestrais puderam aprender e aprofundar seus conhecimentos acerca do processo de demarcação de suas terras e das leis de acesso à informação do país. O quarto módulo, ministrado por Mayara Justa, da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP), finalizou o curso deixando muita saudade em todos que participaram desde seu início, em julho de 2016.

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As ricas discussões com base em textos eram realizadas sob a forma de dinâmicas que estimularam tanto a leitura quanto a criatividade. A encenação de um telejornal, a proposição de perguntas para os demais colegas e até mesmo brincadeiras com balões foram executadas na metodologia.

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Os debates, sempre acompanhados de visões críticas, demonstraram uma apropriação do tema e a rápida assimilação dos conteúdos por parte dos indígenas. Críticas à academia – por não estudar sobre a questão indígena no Brasil – e à sociedade como um todo – que em 2012 elegeu quatro vereadores indígenas no Ceará, e agora apenas dois. Foi, inclusive, na encenação do telejornal que as maiores críticas se fizeram presente.

O povo Tremembé da Barra do Mundaú afirma – agora mais fortalecido no conhecimento de seus direitos – que não vão sair de sua terra natal e que ainda sofrem muito preconceito. Segundo relatos do próprio Povo Tremembé, há dois anos, por exemplo, os índios do Nordeste eram invisibilizados e silenciados pelos próprios índios de outras regiões do Brasil. Agora o cenário é de mudança e aceitação.

No Ceará, a problemática vem de longa data. No entanto, é somente em 2012, após a ameaça de retirada dos indígenas de suas terras que o assunto ganha holofotes. A ameaça veio de longe, da Espanha: um grupo espanhol queria construir um resort onde estão localizados sítios dos índios Tremembé. Foi a chegada do empreendimento, Nova Atlântida, que fez com que eles se articulassem melhor, uma vez que sua terra estava ameaçada – além das matas, rios e animais, que morreriam com o desmatamento.

O grito pela proteção vem de longa data e foi reforçado por inúmeras vezes durante a formação. Erbene Tremembé é uma das lideranças da tribo e foi falando dessa necessidade de proteção que concluiu seu pensamento em uma das atividades da formação: “temos que proteger a nossa mãe terra, é dela que vivemos. Sem terra não há índio!”

E se o índio precisa da terra para viver, o projeto Ação Tremembé chega em momento oportuno, com a realização de cursos para para fortalecer o Povo Tremembé, possibilitando, assim, que eles ampliem seus conhecimentos sobre direitos humanos e se tornem multiplicadores e multiplicadoras desse aprendizado. O projeto Ação Tremembé ainda contará com mais 3 turmas de multiplicadores e multiplicadoras indígenas em Direitos Humanos, 2 turmas de de multiplicadores e multiplicadoras indígenas em Agroecologia, Extrativismo Sustentável e Conservação Ambiental e 2 turmas de multiplicadores e multiplicadoras indígenas em Arte, Comunicação e Inclusão Digital.

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