No segundo dia do Congresso Brasileiro de Agroecologia, a tarde foi tomada por discussões e oficinas sobre diferentes temas. O agrônomo Luís Eduardo Sobral e a economista doméstica Neila Santos, ambos coordenadores do CETRA, estiveram facilitando uma roda de conversa que se propôs a discutir a relação ente a agricultura familiar e a assessoria técnica e extensão rural. A mistura de olhares de profissionais, agricultores e acadêmicos gerou um debate rico e produtivo sobre o tema.

O debate envolveu aproximadamente 20 pessoas e inciou com a apresentação de Luis Eduardo do estudo de caso desenvolvido no território Vales do Curu e Aracatiaçu a partir da análise de um agricultor que recebeu assessoria técnica governamental, um casal que havia recebido assessoria de alguma organização da sociedade civil, no caso o CETRA, e um agricultor que não havia recebido nenhuma assessoria técnica. Além disso, foi caracterizado o território, sua história social e produtiva e as condições geográficas.

Logo após, Cinara Sanches (SASOP-BA) explicou que esse estudo havia sido realizado em várias regiões do Brasil, contemplando todo o semiárido. Ela destacou a falta de dados na agroecologia devido à velocidade das atividades realizadas, mas anunciou o lançamento de uma publicação com a análise global dos estudos para 2012. Cinara apontou também  que a comparação entre o sistema agroecológico e o tradicional deve ocorrem em uma visão mais global, para  além dos números – deve-se analisar, por exemplo, a qualidade da alimentação do produtor e as relações sociais naquela família e comunidade – além de puxar para o papel de que é necessário às organizações definir o que é a extensão rural em sua perspectiva.

As intervenções após a apresentação foram diversas. O professor Joaquim Torres (UFC-Cariri) colocou que “temos que pensar uma agroecologia com o olhar no presente e no  e futuro”. “Agroecologia como receita de bolo não existe, cada caso é um caso”, complementou Carlos, agrônomo e colaborador do IPA-PE.

Ganhou destaque a fala de José Júlio Rodrigues, agricultor experimentador agroecológico. Para José Julio, que há nove anos cultiva de forma agroecológica em seu quintal e roçado, as dificuldades da agroecologia estão para recuperar a forma antiga de se fazer agricultura e conta que, no começo, as pessoas da sua comunidade acharam que ele estava doido, que não ia dar certo. “Mas deu certo, agroecologia dá certo sim!”, explica ele, que acrescenta que os resultados não são imediatos, demora um pouco para aparecer. Ela ainda diz que participa de quatro feiras agroecológicas por mês e que hoje tem pessoas que preferem comprar na feira que no mercado, porque sabem que aquele produto é bom, além da relação que se cria entre produtor e consumidor.

Na questão do consumo, Neila Santos, coordenadora do CETRA, inicia sua fala destacando que “é necessário romper com a lógica do capitalismo”. Ela segue dizendo que o trabalho é no sentido também de desconstruir a cultura propagada de que aquilo produzido industrialmente ou fora é melhor que o que o agricultor cultiva no seu quintal. Cinara Sanches retoma a fala no mesmo sentido, observando a importancia de se trabalhar também o consumidor, que ele saiba que existe outra coisa e o que ele está financiando quando escolhe um produto agroecológico ou um do agronegócio.

Encerrada a tarde, muitos aprendizados para todas as partes. O VII Congresso Brasileiro de Agroecologia vai até sexta, 16 de dezembro, e tem como tema “Ética na ciência: Agroecologia como paradigma para o desenvolvimento rural”.

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