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 -Olá, bom dia, meu nome é Mbya Pitaguary, tenho 19 anos e estou ameaçado de morte.

 Esse foi o tom que ecoou durante a visita de intercâmbio do 9º ETA que aconteceu em Itapipoca/CE e a voz segura do menino de 19 anos que pisa firme no chão de seus parentes deixou a todos perplexos diante da força que emana da resistência indígena. Essa foi a marca desse intercâmbio; a luta e resistência de um povo que vem sendo perseguido e ameaçado por um empreendimento estrangeiro chamado “Nova Atlândida” e essa terra prometida só vingará aparentemente a custo de sangue, literalmente, dos índios Tremembé.

O grupo foi recebido pelo indígena Paulo César, da aldeia São José, que inicia a fala saudando todos os agricultores presentes. Ele ressalta o engajamento da aldeia na prática agroecológica, fala sobre a festa do “murici batiputá” – que acontece anualmente e mobiliza toda aldeia, conta sobre os espaços destinados a conservação e fala da importância da conscientização acerca da agroecologia; conta como a prática vem se disseminando entre os indígenas que veem na agroecologia um retorno a certos hábitos que seus ancestrais já adotavam.

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Depois da fala de Paulo, Julivan, membro da juventude indígena e professor da escola indígena da aldeia, trouxe o histórico da luta da comunidade contra a especulação imobiliária, principalmente o empreendimento “Nova Atlândida”, que há anos tenta investidas contra os indígenas do Sítio São José. O jovem narrou às táticas do grupo estrangeiro; desde ameaças de morte até sórdidas tentativas de segregar os índios, tentando chantagear parentes indígenas para que esses estimulem as lideranças a abrirem mão de suas terras.

Plantações amanhecem queimadas, espaços de convivência da aldeia sendo depredados, ameaças de morte; o projeto Nova Atlândida quer, na praia da Baleia, instalar um conjunto de resorts que visa trazer um pouquinho da Europa para o Brasil, com instalações arquitetônicas inspiradas nas principais cidades europeias. Mais ali é território indígena, reconhecido, porém, ainda não demarcado. Mbya Pitaguary, parente de outra etnia que estava junto aos Tremembé fez sua fala em cima da luta indígena no Brasil, ressaltando que o estado brasileiro parece ter abandonado os índios e vem virando as costas para a causa indígena. É preciso demarcar as terras indígenas urgentemente antes que todos sejam dizimados e tenham seus conhecimentos e cultura extinta.

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Outras falas, de agricultores, seguiram os posicionamentos dos índios, Dona Verônica, de Apuiarés, trouxe o conflito pelo acesso a água em sua comunidade e contou que as artimanhas são as mesmas: ameaças, intimidação, agressões e todo tipo de covardia que se possa imaginar. Mailson, também de Apuiarés, ressaltou a pergunta feita no primeiro dia do ETA; desenvolvimento pra quê e pra quem? Trazendo os inúmeros problemas que um empreendimento desse porte, desconectado com nossas necessidades, com nossa história e nocivo a natureza pode trazer a uma comunidade tradicional, envolvida com a conservação da mata nativa, engajada na preservação dos olhos d’águas e portadora de um conhecimento sobre o território inigualável. Então, me diz aí, o que é desenvolvimento?

Por fim o grupo pôde estar em contato com outros aspectos da construção agroecológica, observando que agroecologia passa longe de ser apenas uma alternativa de manejo do solo, das plantas, mas que é, entre outras coisas, resistência! Não existe agroecologia sem a reforma agrária, sem a demarcação das terras indígenas e quilombolas. Essa luta contagiou a todos os agricultores presentes, levou o grupo a ter um novo olhar sobre os indígenas, superar o senso comum e as visões estereotipadas, se apropriar um pouquinho da história vista com outro olhar. Agroecologia é, também, libertação!

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