I.I.CurraisNovos

Nos últimos dias 29, 30 e 31 de julho, aconteceu o Intercâmbio Interestadual do projeto P1+2 do BNDES, que levou agricultores dos municípios de Umirim, Tejuçuoca e Irauçuba para conhecer agricultores beneficiados com o projeto e que já tem sua cisterna instalada e caráter produtivo funcionando, com objetivo de mostrar a potencialidade do projeto e que, a partir das cisternas, muito pode ser feito, gerando renda alternativa, melhorando a vida de diversas famílias.

Mas tudo começou com uma cansativa viagem de quase 9 horas de estrada, cortando o Ceará, o que despertou a curiosidade de muitos agricultores, que iam redescobrindo as cidades no caminho; Pacajus, Jaguaruana, Russas, Limoeiro do Norte, em cada cidade uma história era contada, um causo era partilhado, às vezes sobre um vizinho, um primo, um irmão que havia comprado um lote, um amigo que estava conseguindo ganhar dinheiro com produção de milho. Tudo interligado, caminhos e descaminhos.

Chegando a Currais Novos, já tarde da noite, foram todos recepcionados pelo Manoel D’almeida, dono do hotel e torcedor do Sport, enfim, um potiguar de ascendência portuguesa que havia morado muitos anos em Recife, primava pela alegria e amenizou a viagem de todos com suas histórias e piadas. Depois do momento descontraído era hora de recuperar as forças para as visitas do dia seguinte, visitaríamos primeiro José Pedro, no P.A José Milanez em Lagoa Nova, município vizinho, de lá seguiríamos para a experiência de Dona Fátima, na comunidade Serra de Santana, também em Lagoa Nova, ambas assistidas pelo SEAPAC – Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários.

O dia ia se avizinhando pela janela e já estavam todos acordados, tomando café e aos poucos tomando seus lugares no ônibus, dois funcionários do SEAPAC acompanharam a visita, o técnico Canindé e a comunicadora popular Carmem Nascimento, que guiaram o grupo e ajudaram a tirar algumas dúvidas sobre as comunidades que seriam visitadas.

I.I.CurraisNovosIVZé Pedro e Joana

No P.A José Milanez, em Lagoa Nova, um vento frio de serra deixava todo mundo procurando o sol e fugindo da sombra dos cajueiros. Próximo a cisterna enxurrada, todos se reuniram e começaram as apresentações. Seu Zé Pedro é um homem de muitas histórias, já trabalhou em diversas áreas e rodou o Brasil todo, sempre atrás de uma melhoria de vida e demorou pouco para ele perceber que o que buscava estava onde havia deixado às raízes. No retorno, ele e Dona Joana se estabeleceram no José Milanez e a partir daí deram seguimento a seus projetos, como agricultores familiares.

Desde que o SEAPAC trouxe a ideia do projeto de cisternas, seu Zé Pedro se tornou um entusiasta da tecnologia e como presidente da associação de moradores levou esse conhecimento a outras famílias, que gostaram da ideia e construíram suas cisternas. Zé Pedro produz muita coisa em seu quintal, diversas hortaliças, árvores frutíferas, produção que alimenta sua família e garante renda extra “hoje eu posso comprar uma televisão melhor, uma geladeira melhor, tudo melhorou, nossa renda deu um ‘pinote’, agora a gente trabalha com os braços e com a cabeça” diz seu Zé Pedro

No quintal de Zé Pedro todos puderam conhecer a cisterna de segunda água, vê-la cheia, com os canteiros distribuídos pelo quintal, o sistema de irrigação dando resultados, as diversas culturas que Zé Pedro mantém. No fim, todos agradeceram a recepção, aproveitaram para levar mudas e sementes de diversas plantas e ainda ouviram de Zé: “No começo eu vivia ligando pra budega da esquina: ‘ei, tem cheiro verde’, hoje eu vendo pra ele”.

O Quintal de Sabores de Dona Fatima

Saindo de Zé Pedro foram todos para o quintal de Dona Fátima, na comunidade Serra de Santana. O acesso de ônibus eraI.I.CurraisNovosIII um pouco complicado e uma boa caminhada espantou o frio aquecendo as pernas e as ideias. Na casa de Dona Fátima é possível notar o capricho da família com a produção, diversas garrafas pet espalhadas pelo cercadinho da entrada com alface, manjericão e plantas ornamentais e já avistada a cisterna calçadão, todos puderam constatar a eficiência do projeto no quintal da família; canteiros produtivos por toda parte, beterraba, cenoura, alface, cheiro verde, pimentão, tomate, repolho e muitas árvores frutíferas.

Depois da apresentação todos puderam explorar o quintal de Dona Fátima e Seu Manoel, andaram por entre os canteiros, viram os animais, conversaram com Manoel sobre a produção, as dificuldades do projeto, o manejo de algumas culturas e ao final, uma roda foi feita embaixo do cajueiro, onde todos puderam fazer suas perguntas a Manoel e Canindé (SEAPAC). O agricultor contou da dificuldade em acertar o ponto certo da construção da cisterna calçadão, mas que depois dos acertos finais foi possível ver sua cisterna cheia logo nas primeiras chuvas.

Um dos assuntos abordados foi também o perigo da especulação imobiliária e a crescente investida em parques de energia eólica. A área é serrana e há procura constante para compra de terrenos para construção de casas para lazer de famílias que não são de lá, deixando improdutivo vários hectares de terra rica para diversas culturas. Outra investida constante é a construção de “cataventos” gigantes para exploração de energia eólica. Mas todos estão cada dia mais cientes do perigo de ceder espaço para uma ação predatória e que não beneficia em nada o crescimento sustentável da região.

No fim da conversa a fome já começava aparecer e Dona Fátima surgiu com panelas, pratos, talheres e anunciou o já esperado almoço, todo feito com produtos de seu quintal, eram diversos tipos de saladas, feijão, torta vegetariana, galinha caipira, torta de batata, escondidinho, suco de laranja e ali foram todos se servindo, ocupando suas mesas e debaixo dos cajueiros, riam e contavam histórias, esquecidos da caminhada de volta que logo fariam.

I.I.CurraisNovosII

Seguindo as visitas, agora na comunidade de Baixa Grande, foi possível conhecer, em pouco tempo, mais três experiências exitosas, acompanhadas pela SEAPAC, de cisternas enxurrada e calçadão, algumas ainda em construção e, lá na igreja da comunidade, todos puderam fazer a avaliação final, falando da importância de trocar essa experiência, entender as diferenças do solo e clima, levar algumas ideias e deixar também algumas observações e claro, ter a certeza de que a construção da cisterna e o que a envolve pode ser mais uma opção de melhoria de vida. “Foi muito rico esse momento, aprendemos bastante e deixamos muita coisa aqui também, agora é voltar e aplicar o que vimos dar certo” conta a agricultora Geane.

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