A ciranda é uma dança tipicamente nordestina, mas não é preciso nascer no Nordeste brasileiro para entender o sentido dessa dança circular: para cirandar é preciso entender com o coração, é juntar mão com mão, na solidariedade que começa em qualquer ponto do círculo. E foi dessa forma que Sergio Serrano e Francisco Borges, da organização espanhola Manos Unidas, entraram na ciranda do Semiárido. Entre os dias 27 e 28 de maio, Sergio e Francisco, visitaram no Ceará experiências agroecológicas no Território Vales do Curu e Aracatiaçu e no Território do Sertão Central que foram acompanhas pelo Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA) e financiadas pela Manos Unidas.

 Em um espanhol quase transparente a organização já traz no nome seu recado: mãos unidas. São as mãos de trabalhadores espanhóis que se unem a trabalhadores camponeses brasileiros no intuito de potencializar ações de desenvolvimento social. A primeira parte da visita, no dia 27, aconteceu no Espaço de Experimentação Agroecológica, em Itapipoca (Ce), com uma reunião de Rede de Agricultores e Agricultoras Agroecológicos do Território Vales do Curu e Aracatiaçu. A manhã teve início com um rico café agroecológico onde os visitantes puderam saborear tapioca com galinha, água de coco, bolos diversos, frutas, sucos, entre outras delícias inteiramente produzidas pela agricultura familiar.

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Margarida Pinheiro (CETRA) deu as boas vindas e ressaltou o prêmio ODM recém recebido pela Rede e pelo CETRA: “Esse prêmio é nosso! É fruto de um trabalho coletivo.” O troféu, que foi entregue pela presidenta Dilma Rousseff durante evento em Brasília no dia 23 de maio, passou pelas mãos de todos os agricultores e agricultoras presentes na reunião. Ao passar pelas mãos de Francisco, a solidariedade entre os trabalhadores/as foi o elemento de destaque: “Seguro e dedico esse prêmio também aos trabalhadores e trabalhadoras da Espanha que se dispuseram a ser solidários com os trabalhadores e trabalhadoras daqui.”

Durante a reunião foram debatidos temas como os desafios que estão postos para a Rede, projetos para a juventude campesina, produção agroecológica, feiras agroecológicas, aposentadoria no campo, entre outros. Durante a manhã os agricultores e agricultoras deram seu depoimento sobre a experiência agroecológica e em rede. A agricultora Fafá relembrou o primeiro projeto realizado com o apoio da Manos Unidas – Caminhos da Sustentabilidade – do qual ainda guarda a placa com zelo em seu quintal. “Com o curso e com o projeto Manos Unidas eu recebi uma capacitação. Foi por meio desse curso e dessa Rede que nós permanecemos unidos. Comecei pelo quintal e hoje tenho um SAF”, relatou Fafá.

No período da tarde os visitantes e parte da equipe técnica do CETRA seguiram para o Assentamento Novo Horizonte, em Tururu (Ce), onde foram visitados os quintais da dona Graça e Fransquinha. Nos quintais foi possível conhecer a experiência das agricultoras, o que cultivavam, o modo de cultivo, entre outros elementos. Caminhando entre os quintais os visitantes puderam conhecer novos temperos – como o Manjericão –, se maravilhar com as flores cultivadas pela dona Graça, e com a dedicação da dona Fransquinha ao quintal de apenas 20 metros que produz goiaba, banana, manjericão, hortelã e várias mudas que ela comercializa na Feira Agroecológica. A tarde foi de despedidas, mas também, de novos começos: partindo do Vales do Curu e Aracatiaçu rumo ao Sertão Central.

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No dia 28 a manhã começou novamente com um café agroecológico, mas dessa vez a cidade era Quixeramobim. Após o sortido café, os feirantes agroecológicos e a equipe Manos Unidas e CETRA se reuniram para trocar conhecimento sobre as ações realizadas. Foram debatidos os desafios nos quintais, assessoria técnica, produção e comercialização agroecológica. Após a reunião a viagem continuou rumo ao Assentamento Boa Vista, em Quixadá (Ce), onde aconteceu a visita na área da dona Lurdes. A partir do mapa da propriedade a agricultora conseguiu demonstrar as mudanças que a área passou desde que teve início o trabalho da assessoria técnica.

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Foram dois dias curtos, porém intensos, onde a ciranda da troca do conhecimento agroecológico girou. A cabeça pensa por onde os pés caminham e assim, os trabalhadores da Espanha puderam compreender melhor sobre agricultura familiar, agroecologia e convivência com o Semiárido para que dessa forma possamos continuar entre mãos e corações unidos.

Texto: Amanda Sampaio

Fotos: Amanda Sampaio; Margarida Pinheiro

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