Jovens do Assentamento Maceió (Itapipoca/CE) e do Assentamento Várzea do Mundaú (Trairi/CE) são selecionados no 3º Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social

 

Texto Amanda Sampaio

Fotos Amanda Sampaio e Arquivo Breno Veríssimo

 

Quando falamos em cultura alimentar faz-se necessário voltar nosso horizonte para o modo de vida camponês e das comunidades e povos tradicionais que vivem, em especial, no campo. Já sabemos que a máxima “Se o campo não planta, a cidade não janta” é verdadeira, mas caberia ainda dizer que se o campo não planta a partir dos seus saberes tradicionais a cidade não se alimenta de fato. É preciso pensar no alimento que nutre – sem veneno e transgenia – e que representa a cultura alimentar de um povo.

 

A Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (EGSIDB) promoveu, nesse mês de setembro, a terceira edição do edital do Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social. O Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social é um programa focado na busca de soluções que fortaleçam a cultura alimentar cearense. O objetivo do Laboratório é ajudar a aguçar o olhar sobre os desafios, navegar pelas oportunidades e buscar soluções concretas que valorizem a cultura alimentar cearense e promovam qualidade de vida para os diversos atores que colocam comida na nossa mesa, como nos conta Uliana Lima, coordenadora do Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social da EGSIDB.

 

Entre os selecionados neste edital do Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social estão Rojane Santos (27), do assentamento Maceió, em Itapipoca/CE e Breno Veríssimo (26), do assentamento Várzea do Mundaú, no Trairi/CE. A pesquisa de Rojane será em torno do melhor aproveitamento do coco, que existe em abundância na região. A jovem faz parte do grupo de produção do Óleo de Coco Agroecológico da comunidade Sítio Coqueiro, que produz também coco ralado, produtos que são comercializados nas Feiras Agroecológicas e Solidárias.

 

“Eu tô muito feliz, desde que eu conheci a Escola eu sempre quis (fazer parte). Minha pesquisa é sobre o coco, queremos fazer o melhor aproveitamento, não deixar se perder nada. Minhas expectativas pro Laboratório, além de criar um projeto e trazer melhorias pro assentamento, é fazer com que a renda circule dentro do assentamento, é servir como exemplo para outros jovens, além do conhecimento que eu vou repassar”, conta Rojane sobre a aprovação no edital.

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Rojane mostrando o processo de produção do Óleo de Coco Agroecológico para Fábio Mena, um dos mentores da pesquisa de Mateus Tremembé no 2º Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social. Comunidade Sítio Coqueiro, Assentamento Maceió, Itapipoca/CE.

 

Já Breno irá pesquisar sobre a Araruta, uma espécie do gênero Maranta, cujo rizoma (caule subterrâneo) tem fécula branca que é alimentícia. A planta já foi muito cultivada no campo, mas acabou perdendo espaço para produtos industrializados. Breno conta que o seu primeiro contato com a araruta foi a partir de sua avó, quando ela ofereceu um mingau que ele percebeu que não era feito das massas industrializadas que se usavam comumente. Percebendo a diferença, e questionando a avó sobre do que era feito o mingau, Breno recebeu uma aula da avó que contou que o mingau era feito de araruta, uma planta que era muito utilizada para fins alimentícios no assentamento por muitas gerações. A partir disso, a curiosidade de Breno como pesquisador da araruta, se aguçou e ele saiu colhendo informações com as pessoas mais velhas da comunidade.

 

“Eu espero, com o edital, que possamos construir um regaste e também uma oportunidade de geração de renda para as famílias a partir da araruta. Quero explorar as potencialidades da araruta tanto no meio gastronômico como também a partir dos seus subprodutos que podem ser comercializados nas Feiras Agroecológicas. Ela gera uma farinha que não contém glúten, então, é uma ótima opção também para quem não pode consumir glúten. O bacana de tudo isso é que vai ser um produto que vai levar uma marca da resistência, vai ter uma história toda por trás, que vem da reforma agrária, que tem todo uma história tanto ligada à minha família, como a luta pela terra no assentamento. A resistência é a marca da araruta”, conta o jovem.

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Breno no quintal da sua casa, comunidade Vieira dos Carlos, assentamento Várzea do Mundaú, Trairi (CE)

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Araruta

 

O Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador - CETRA acompanha, a partir da assessoria técnica de base agroecológica, os jovens selecionados no edital. Ao todo o CETRA acompanhou 6 propostas, vindas do Sertão Central, Sobral e Território Vales do Curu e Aracatiaçu, enviadas ao edital da Escola de Gastronomia Social. Para Neila Santos, da coordenação do CETRA, “acompanhar e apoiar essas propostas é muito gratificante. Saber que esses dois jovens, que estão conosco em vários processos, foram aprovados é muito importante. Eu tenho certeza que vai ser grandioso, em especial, para a Rojane e o Breno, mas também para o fortalecimento das ações da Rede de Agricultores e Agricultoras Agroecológicos/as e Solidários/as no território (Vales do Curu e Aracatiaçu), para estimular a juventude na geração de renda, na reconstrução da identidade rural, em construir possibilidades diferentes”, conta Neila.

 

A presença de pesquisas que tem relação com o campo é muito enriquecedora para o estudo da cultura alimentar do Ceará. Na segunda edição do edital, o jovem Mateus Tremembé (24), realizou a pesquisa “Batiputá – O Óleo Sagrado que Alimenta e Cura. Saberes e Sabores do Povo Indígena Tremembé da Barra do Mundaú”. Para Mateus, é muito importante que esses saberes e sabores do campo estejam sendo valorizados.

 

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Mateus Tremembé na apresentação da finalização da sua pesquisa na Escola de Gastronomia Social

 

“Fico muito feliz em ver que temos outras pesquisas do campo, que temos outros jovens se interessando a pesquisar sua cultura alimentar, seus saberes, que são a sua identidade. Isso me deixa muito feliz porque sinto que essa transmissão, que essa visibilidade, abraça novos olhares. Vai agregar valor ao nosso território, mas vai chamar atenção também para jovens de outras comunidades, eles observam que é necessário também sair para voltar o conhecimento para casa para que as pessoas de foram vejam também que a gente faz cultura alimentar, que a gente preserva as nossas raízes. O laboratório é também um espaço de diálogo com outras culturas, abre os nossos olhares para outros campos. Faz com que a gente veja a nossa cultura alimentar, os nossos conhecimentos e tradições como algo especial e único”, conta Mateus.

 

Sobre essa troca entre campo e cidade durante o Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia Social, a coordenadora Uliana Lima, nos conta que “a convivência com a juventude do campo nos levará a conhecer o encanto dos seus territórios e a energia das suas ideias. Permitirá encontros e contações de histórias sobre as origens do cultivo, do preparo, do servir, comportamentos, superstições, que são, em cada peculiaridade, um ato cultural e social”.


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