Texto e fotos por Miguel Cela | Canindé (CE)

 

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As sementes crioulas são afetivamente chamadas de sementes da vida no semiárido cearense

 

Nos últimos dias 15 e 30 de maio as ruas do país se pintaram de povo, no primeiro desses dia que ficou conhecido como #15M agricultoras e agricultores de todo o Ceará estavam reunidos no III Festival Cearense das Sementes da Vida, em Canindé (CE) para discutir sobre sementes crioulas e a importância delas para a convivência com o Semiárido.

 

Sementes crioulas são as sementes seculares das famílias, não modificadas geneticamente e sem agrotóxicos e cuja preservação é importante para que as agricultores e agricultoras não dependam das sementes distribuídas pelo governo. No Ceará elas são carinhosa e afetivamente chamadas de Sementes da Vida.

 

No entanto, para plantar no inverno sem depender das sementes que o governo distribui, é preciso guardar sementes. Essa é uma prática secular e as falas dos agricultores trazem as memórias das sementes guardadas mesmo antes de entender a importância dessa iniciativa. Maria de Fátima, ou Fafá, como é mais conhecida é reconhecida nas lutas, lembra-se do pai que armazenava as sementes em garrafas de vidro. “Antes não tinha essas garrafas de plástico”, conta fazendo o contraponto às práticas atuais. Fafá é guardiã de sementes e coordenadora da Casa de Sementes da comunidade onde vive: a comunidade Jenipapo, em Itapipoca (CE).

 

A agricultora lembra de quando era pequena e do que via no quintal da avó. Fala que comia a “batata” da junça e que tem gosto de noz. O tempo passou e o costume de plantar a junça foi se perdendo e as sementes acabando. A agricultora foi, então, atrás de resgatar a semente para que pudesse voltar a plantar. “Hoje eu tenho a semente da junça. A batata dela é muito gostosa, tem gosto de noz”, conta orgulhosa.

 

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O trabalho de resgate de sementes crioulas vem a partir do programa Sementes do Semiárido, realizado pela Articulação Semiárido Brasileiro. Antônio Barbosa, coordenador do programa, conta que o nordeste é a região com a maior variedade de sementes. “Por conta da seca, os agricultores e agricultoras vão levando e trazendo sementes dos lugares”, conta. “Agricultor gosta de semente.”

 

O programa Sementes do Semiárido nasce a partir da percepção da importância de se resgatar e valorizar o patrimônio genético das comunidades. Para isso, ele se propõe a fortalecer as casas de sementes comunitárias, bem como a articulação delas em rede, permitindo, assim, as trocas de sementes.

 

Para Malvinier Macedo, presidente do Consea Ceará, “a discussão da autonomia dos povos rurais dos diversos biomas e da soberania alimentar” deve ser continuada pelo Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA). A soberania de um povo não existe “se não pudermos escolher o que comer, o que plantar, se não tivermos nossa autonomia”, completa.

 

O III Festival Cearense das Sementes da Vida e o V Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores aconteceu em maio, em Canindé (CE). O festival teve realização do Centro de Pesquisa e Assessoria Esplar, do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido e da Articulação Semiárido Brasileiro, com apoio da Fundação Banco do Brasil.

 

Matéria publicada originalmente no Brasil de Fato em 3 de junho de 2019.
Edição: Monyse Ravena


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