Texto: Francisco Barbosa

Fotos: Francisco Barbosa

 

Nem a longa distância percorrida a ônibus durante dois dias de viagem, nem o cansaço acumulado durante esse trajeto e muito menos a temperatura que chegava a 13ºC foram capazes de atrapalhar a alegria e a força da delegação cearense que esteve presente no IV Encontro Nacional de Agroecologia – ENA, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 03 de junho, em Belo Horizonte.

 

Com uma programação repleta de atividades, o ENA contou com oficinas, debates, plenárias, intercâmbios de experiências, feiras culturais, comidas típicas, troca de sementes, apresentações artísticas e muito mais. A agroecologia, o protagonismo feminino, as lutas dos povos tradicionais, juventude e a comunicação popular foram pautas constantes durante o Evento que este ano teve como tema: Agroecologia e Democracia - Unindo o Campo e a Cidade.

 

Na manhã do segundo dia do ENA, 1° de junho, as atividades se concentraram nas apresentações de experiências de vários territórios e biomas nacionais. O Território do Vales do Curu e Aracatiaçu, no Ceará foi um dos destaques das ações do dia. Durante a apresentação, os/as participantes tiverem a oportunidade de conhecer melhor a luta, resistência e dificuldades encontradas por cada experiência. O Ceará se apresentou na Tenda Litoral, ao lado do Litoral do Rio de Janeiro (RJ); Resistência e Gestão da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curu (PA) e Movimento de Pescadoras e Pescadores Artesanais do Litoral do Paraná (PR).

 

As/os representantes do Ceará falaram sobre empoderamento feminino, resistência indígena, agroecologia, povos de terreiro, turismo comunitário e especulação imobiliária. Dona Rita Maria de Oliveira, agricultora do município de Tururu, do Território do Vales do Curu e Aracatiaçu falou sobre a importância do trabalho do campo. "Com essa greve dos caminhoneiros faltou alimento em vários supermercados, agora vão lá no campo pra vê se faltou comida pro trabalhador e trabalhadora! Não faltou, não! Porque a gente não depende disso!", disse.

 

Mateus Tremembé, representante do povo Tremembé da Barra do Mundaú, localizado no município de Itapipoca (CE), falou sobre a luta pelas terras de sua gente. "A gente luta contra um empreendimento europeu que quer construir dentro da terra indígena uma cidade turística. Essa cidade tiraria todo o nosso povo indígena de lá, todos nossos familiares pra construir hotéis cinco estrelas, campo de golfe... essas coisas do turismo de massa do qual não é nosso objetivo”, e continua, “A gente, ao longo do tempo, veio se formando, trabalhando. Nós somos o único povo do Brasil a estar dando continuidade ao processo demarcatório da terra em meio a esse processo político de retrocesso”.

 

Desde 2016, o CETRA realiza o projeto Ação Tremembé, que conta com o financiamento da União Europeia. O projeto apoia a defesa e proteção dos direitos humanos do povo Tremembé da Barra do Mundaú, por meio do fortalecimento de conhecimentos, meios de ação e capacidades de articulação, diálogo, visibilidade e incidência política das índias e dos índios e de suas organizações. O Projeto também desenvolve a campanha Iandé Á’tã Joaju – Juntos Somos Fortes que tem o intuito de visibilizar a luta das/dos Tremembé da Barra do Mundaú pela demarcação de seu território.

A agricultora e educadora popular, Luíza Cavalcante, do Sítio Agatha, do município de Tracunhaém, em Pernambuco, assistiu a apresentação do Ceará e gostou de ver a luta do povo e o engajamento da juventude. “A apresentação foi muito linda e emocionante. A gente vê com quanto amor foi feita. É muito forte pra gente esse sentimento de dor, mas é mais forte ainda o sentimento de resistência. Ver os povos resistindo, se organizando, traçando estratégias juntos e, especialmente a participação da juventude é uma coisa que enche o coração. Meu coração jovem fica transbordando de alegria ao ver a juventude exercendo o poder de transformar as relações de desigualdade. Estamos juntos na luta por território, por ‘Demarcação Já’, por reforma agrária, na luta contra as eólicas, contra toda energia nociva, contra o latifúndio e contra o capitalismo”, finaliza.


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