Texto: Francisco Barbosa

Fotos Miguel Cela e Amanda Sampaio

 

Se juntos somos fortes, as agricultoras e agricultores do Ceará mostraram sua força e resistência durante o 12º Encontro Territorial de Agroecologia e Socioeconomia Solidária – ETA, realizado entre os dias 28 e 30 de novembro em Itapipoca/CE. Este ano, o Encontro teve como tema: Agroecologia e Democracia - Unindo Campo e Cidade, em consonância com o IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) que acontece no ano de 2018 em Minas Gerais.

 

A 12ª edição do ETA reuniu aproximadamente 250 participantes, de diversos municípios cearenses, proporcionando debates e a troca de experiências. Confira abaixo um pouco do que foi o ETA.

 

1º Dia
A programação do primeiro dia contou com dois painéis. Pela manhã foi realizado o primeiro que teve como tema Agroecologia e Democracia – Unindo Campo e Cidade, mediado pela Cristina Nascimento, representando a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e contou com a participação do professor Célio Coutinho (UECE); Flávio Barbosa, representando o MST; Joana Almeida, presidente da FETRAECE e; Miguel Braz, representando o Levante Popular.

 

Na ocasião, os/as participantes falaram sobre a importância da democracia para a criação de uma sociedade mais justa e igualitária. O Professor Célio Coutinho falou um pouco sobre a preocupação do avanço da direita e do conservadorismo. “Houve um avanço da direita e migração também do conservadorismo e até migração para a extrema direita". E continua “É preciso uma autoavaliação para que a gente também saia da crise. Estamos numa posição defensiva. Não conseguimos conter os ataques, mas não significa que não há enfrentamento. Estamos correndo pra salvar os direitos conquistados historicamente. Se não houver luta de classes não haverá agroecologia, porque estão em jogo os meios de produção e da terra. É, portanto, importante colocar a agroecologia na perspectiva da luta de classes”, afirma.

 

Na parte da tarde o painel teve como tema Somos Todos Tremembé – Em Defesa dos Territórios Indígenas mediada por Suyane Fernandes, coordenadora do projeto Ação Tremembé (CETRA) e com a participação de Weibe Tapeba – Vereador de Caucaia; Erbene e Adriana, Lideranças Tremembé e Luciana Nóbrega, representando a Funai.

 

A composição da mesa lembrou não somente a luta do povo Tremembé, mas também a luta de outras etnias indígenas. No Ceará, por exemplo, existem quatorze etnias indígenas, no entanto, somente uma terra teve o processo de demarcação completamente finalizado. O povo Tremembé da Barra do Mundaú, que tem a sua área localizada a 55 km da sede do município de Itapipoca, vem lutando pelo processo completo de demarcação de sua terra há anos. Na luta pela terra, os Tremembé tem enfrentado a especulação imobiliária e populações que não se reconhecem como indígena, mas ainda ocupam a terra indígena.

 

O primeiro dia foi finalizado com a Noite da Ancestralidade com apresentações artísticas que transitavam pela cultura negra, indígena e regional. A primeira apresentação da noite foi realizada pela comunidade quilombola de Água Preta. Em seguida os Tremembé fizeram uma grande roda de Torém com o público. A próxima atração foi o grupo Tambores Afro Baião que trouxe em seu repertório samba-reggae, afoxé, maracatu, coco e pontos de Umbanda. A noite finalizou com o forró pé de serra.

 

2º Dia
Durante o segundo dia, os/as participantes tiveram a oportunidade de vivenciar diversas experiências com a realização de intercâmbios em várias comunidades. Os intercâmbios foram divididos em sete temas: Sem Educação Contextualizada não há Agroecologia; Sem Povos Tradicionais não há Agroecologia; Sem Feminismo não há Agroecologia; Sem Juventudes não há Agroecologia; Sem Reforma Agrária não há Agroecologia; Sem Comunicação Popular não há Agroecologia; e Sem Segurança Alimentar não há Agroecologia.

 

Para a agricultora, Rita Maria de Oliveira, 63, moradora do distrito de Cemoaba, no município de Tururu, o momento do ETA que mais lhe marcou foi justamente a realização dos intercâmbios. “Ah meu filho, eu gostei de tudo, mas o que eu mais gostei foi dos intercâmbios. Eu participei do que falava sobre comunicação popular e conhecemos dois grupos artísticos que faziam a comunicação através da arte. Essa troca de experiência e muito rica, a gente aprende muito”, afirma. Dona Rita participa do ETA desde a sua quarta edição e já tem expectativa de como será o próximo. “Próximo ano quero que seja ainda mais animado que esse e quero ver mais gente participando também”, finaliza.

 

À tarde as/os participantes dos intercâmbios voltaram a se reunir na sede do CETREDI para participarem dos diálogos temáticos e falarem sobre as experiências da qual participaram. Ao final, a professora Gema Galgandi (UFC) fez uma síntese do Encontro e dos diálogos temáticos do dia. “Democracia é participação. A gente poder falar, escutar e tomar decisões. É inclusão, é garantir a inclusão de todas as pessoas nos processos. Respeitar a diversidade. Talvez tenha sido o ETA que mais respeitou a diversidade representada aqui pelos povos indígenas, povos dos terreiros, camponeses, juventudes e mulheres”.

 

A programação do dia foi encerrada com o espetáculo de dança Etnia: O Baião das Três Raças, realizado pela Escola Livre Balé Baião de Itapipoca.

3º Dia
No último dia, as/os participantes realizaram um cortejo pelas ruas de Itapipoca em apoio à campanha Iandé Á’tã Joaju – Juntos Somos Fortes que tem o intuito de visibilizar a luta do povo Tremembé da Barra do Mundaú pela demarcação de seu território que, atualmente, encontra-se na fase de levantamento fundiário, tendo concluído no ano passado a demarcação física da terra.

 

Enquanto o cortejo ganhava as ruas de Itapipoca, o povo Tremembé convocava a população a abraçarem a sua luta. “Queremos nossa terra é demarcada / é demarcada / é demarcada / Estamos aqui, nós vamos lutar / Queremos nossa terra pra nós trabalhar” era uma das músicas de Torém entoadas por todos e todas. O cortejo foi finalizado na Praça da Matriz onde as/os participantes celebraram o 12ª ETA cantando os parabéns e repartindo um bolo em comemoração ao aniversário do evento.

 

Essa foi a segunda participação do agricultor, Sebastião David Filho, 32, morador de Pilões, no município de Miraíma. A sua primeira participação foi em 2015 e já sentiu a diferença de um para o outro. “Eu senti que nesse ETA as pessoas estavam com mais vontade de lutar por seus direito. Dá gosto de ver esse povo todo”, e continua. “Esse encontro é bom porque a gente vai se aproximando, conhecendo outras experiências e o público vai conhecendo a importância do nosso trabalho. Uma das coisas que eu mais gostei de ver foi o empenho dos jovens”, finaliza.

 

O último dia também contou com a realização da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca com produtos sem agrotóxicos e saudáveis vindos direto da agricultura familiar.


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